Aquela era uma professora muita séria e dedicada. Talvez a
professora mais experiente em sua disciplina. Trabalhava há pouco tempo na
Universidade Federal da Grande Dourados. Veio da capital, Campo Grande,
sozinha; lá deixou a família.
Certo final de semana, de um verão qualquer, ela resolveu
fazer uma visita ao filho que há muito não via. Aproveitou um recesso escolar e se arrumou toda, arrumou a
bagagem e providenciou um presente para o filho; verificou óleo e água do
carro. Bela e fresca numa manhã de sábado calorento, pegou a estrada rumo a
cidade de Maracaju. No meio do nada, escutou um barulho estranho que fez
“bloc”; não deu importância. Um tempinho mais tarde, ouve o barulho novamente,
desta vez com uma frequência maior, “bloc”, “bloc”, “bloc”.
A professorinha em seu estado de euforia, só pensava em
chegar logo a capital. Ligou o rádio nas alturas e cantarolava uma bela música
da Legião Urbana; na verdade, era uma música da Anitta mesmo: ♫♫ Prepara, agora
é o show das poderosas... ♫♫ de repente, o barulho se tornou ensurdecedor, era
um tal de “bloc”, “bloc”, “bloc”, infernal.
A professorinha assustada indagava:
- “Meu Deus, o que será isso?”
Olhava pelo retrovisor e nada de peça cair.
- “Será que caiu o pára-choque, gente? Será que o
amortecedor se espatifou?”
Não, não, não! Esse barulho ensurdecedor se tornou incômodo
e a professorinha teve que estacionar.
Parou seu belíssimo Mustang no acostamento da MS 156; quer
dizer, ela tinha um golzinho básico, desses que o ar condicionado é natural, da
famosa linha branca, que ela mandou pintar na cor vermelho biscate. É mais em
conta e cabe no orçamento dos profissionais da área da educação, preconceito a
parte, galera.
Para sua sorte, havia uma placa com os dizeres: “cuidado,
animais na pista”. Com muita raiva, ela percebe que o “bloc”, “bloc” era um
pneu furado. Que naquele momento era um finado. Só Jesus na causa! Como toda
atriz deveria se portar diante de um incidente, ela pensa em voz alta: “filho
da p... PCC...”. “Postura professorinha, a senhora é uma profissional da UFGD”,
dizia uma voz em seu subconsciente.
Ela respira fundo, abre o porta-malas
delicadamente. Naquele momento lhe vem à mente uma personagem e acaba por criar
uma sequência de pilates para incorporar a mocinha em perigo no sul do estado
de Mato Grosso do Sul.
Primeiramente, pega o triângulo. Calmamente começa a
montá-lo, dá alguns passos para trás, posiciona-o no asfalto. Olha de um lado,
olha do outro lado. Vê que o triângulo está mal posicionado; direciona-o para a
esquerda, não, não, mais um pouquinho pra direita. Pronto, agora sim, perfeito pra fazer a troca
de um pneu.
Levanta, lentamente primeiro as pernas, o corpo vai se
desenrolando e a cabeça é a última que se ergue, de repente, seu corpo gela,
sua boca seca, o estresse vai as alturas, o coração segue em disparada,
querendo saltar pela boca. Será uma visão do além? Será um anjo ou demônio que
caiu do céu?
Ela pensa: “bom, tenho duas alternativas, ou é para o bem ou
para o mal! Seja lá o que Deus quiser”.
Nisso desce de sua máquina turbinada, um belo, simpático, elegante,
enfim, um negão de 1,90 de altura, musculoso e gostoso. O cara não andava, ele
desfilava em sua direção.
Ao fundo ela ouve Rosana Fiengo ♫♫ Como uma deusa você me
mantém, e as coisas que você me diz me levam além ♫♫. Ela só pensa em não sair
de perto do triângulo, se caso aquele negão de tirar o chapéu resolvesse algo,
ela tacaria na cabeça dele. Como se um triângulo seria páreo para aquele deus
de ébano. Mas enfim, o motociclista vai logo perguntando, com aquele jeito todo
macho dos sul-mato-grossenses, onde está seu macaco? Ela só consegue menear a
cabeça em direção ao porta-malas.
O sujeito mal encarado pega em seu macaco, digo no macaco do
carro, com toda sua força e sob a camiseta seus músculos se sobressaem
deixando-a encantada. Ele, pra puxar conversar e deixá-la mais tranquila,
afirma que só naquela semana ele já tinha socorrido pelo menos mais três damas
em perigo.