Depois de mais um dia ensaio (que foi
uma bosta) e ter convivido com gente mal educada, desrespeitosa, chego em casa e
encontro um post de uma colega das artes cênicas, no qual ela manda beijinhos no ombro e
desiste da caminhada, justamente por conviver com gente mal educada.
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Imagem: materialdomovimento.wordpress.com |
Realmente não tem como gostar de
gente mal educada. Não existe um ser humano que possa dizer que é agradável
estar com pessoas que te desejam sempre o mal, que torcem pelo seu tropeço, que
riem quando você esquece o texto. Não tem como dizer que é bom ver alguém
acuado pelos cantos, com medo de fazer feio perante os renomados atores do
espetáculo “coró do côco”.
Não tem graça nenhuma você se
abdicar dos teus para ficar num grupo que só te deseja fora dele. Não tem graça
você rastejar aos pés pedindo clemência e só receber chutes e pontapés.
Ser ator é lidar com sentimentos,
é ter duas faces num único corpo, é brincar de “verdade ou consequência”, é
andar na linha tênue da loucura, da insensatez de um coração de pedra, é viver
na razão da razão nas quais a própria razão desconhece.
Na real, eu te entendo. Eu mesmo,
já desisti várias vezes, já mandei muita gente pro inferno, tudo bem foi
mentalmente, mas mandei. Dormi muitas vezes tentando decorar o texto. Já
reclamei por achar que minha parceira no espetáculo não está presente na hora
que mais precisamos. São coisas da vida.
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Imagem: Internet |
Seria mais fácil passar por essas
turbulências sem estudar, sem se envolver com gente do mal, sem precisar
externar sentimentos de revolta, de negação, de falta de autoestima. Virar
noites, ficar noiado, sem se importar com o que vai acontecer no dia
seguinte. Seria mais fácil resumir
nossas vidas em pegação com pessoa lindas, saradas, vazias, ocas, e no final
sermos sempre o protagonista do espetáculo “coró do côco”, ops, da nossa vida.
O bom mesmo é se tivéssemos
nascidos ricos, lindos, gostosos, sortudos e no lugar do nosso registro de
nascimento, um contrato assinado com a TV Globo, Broadway, Hollywood ou os
números sorteados da mega sena. Mas não, nascemos gente pobre, comuns, pra não
dizer feios, sem uma sexy-appeal aflorada, e nosso contrato milionário veio
assinado por um da Silva, da Costa, da qualquer coisa, o importante é ter o
verbo dar.
Por isso somos essa gente que ri,
chora, sapateia, briga, bota lenha na fogueira, vende o almoço pra ter janta,
não janta porque está de regime. Somos apenas acadêmicos, uns começaram cedo
demais, outros velhos quase demais (o meu caso). Estudamos a noite, pois se faz
necessário levantar cedo todos os dias para ganhar dinheiro em outras áreas. É
preciso ter fé, força e foco pra ler todos os russos certinhos demais,
complicados demais. É preciso dividir a marmita requentada com o colega do lado
que não tem grana para um lanche, mas não lhe falta o cigarro, a cervejinha.
Nessa caminhada descobrimos que
nossa verdade está escancarada no rosto de pessoas como a gente, que fazem o mesmo
que eu, você, nós, sem pestanejar, sem ligar para os queridinhos do mal que rondam
qualquer grupo, seita, encontro, enfim onde há gente com gana de fazer arte por
amor ao ser humano e a si mesmo.
Entretanto, eu te entendo. Eu
juro que entendo, mas não compreendo. Espero que teu adeus seja passageiro,
como uma chuva de verão, como uma leve brisa que passa ao anoitecer. Espero do
fundo da minha alma que ninguém esteja pronto para mais desistências.