Morte. Uma certeza na vida de
todos, mas extremamente misteriosa. Tão misteriosa que pode dar medo, mas não
para aqueles que fazem dela o seu ganha-pão. Já imaginou ser maquiador de
defuntos? E colocar a roupa no “presunto”? Tenta pensar como é dirigir todos os
dias um carro com um caixão dentro – cheio, é claro! Agora imagina essas
profissões executadas por pessoas completamente birutas e miseráveis, que não
conseguem o tão desejado upgrade social. É assim que a “família Addams do
Irajá”, como denomina Miguel Falabella, vive em ‘Pé na Cova’, seriado de sua
autoria, sob direção geral de Cininha de Paula, direção de Cris D’Amato e
direção de núcleo de Roberto Talma, com estreia prevista para 24 de janeiro.
Um grupo de pessoas excêntricas
cujo negócio é a morte. São loucos, sim. Tão loucos que inventam coisas
curiosas, nada convencionais, como velório drive thru e sanduíches temáticos em
parceria com a carrocinha da esquina – morte-natural, caixão-quente e x-túmulo
são alguns exemplos. Mas, apesar de tanta loucura, não deixam de experimentar
as relações humanas de uma família comum. O estabelecimento que reúne a família
Pereira e seus agregados não poderia ter um nome mais apropriado: F.U.I. –
Funerária Unidos do Irajá. É ali que circula o núcleo principal do programa que
tem a morte e a comédia como pontos centrais. Para que eles sejam felizes,
alguém tem que estar infeliz!
“A morte é o nosso negócio. A sua tristeza é a
nossa alegria”
É com esse lema que os
personagens sobrevivem em ‘Pé na Cova’, repletos de imperfeições e beirando o
absurdo, moldados pelo humor irreverente de Miguel Falabella. ‘Pé na Cova’
trata a morte de forma leve, lúdica e divertida. Ambientado em Irajá, bairro da
zona norte do Rio de Janeiro, o seriado tem 14 personagens fixos, que tentam
lidar com seus sonhos e frustrações, sempre de forma muito bem humorada.
Falabella, o protagonista, é Ruço, apelido de Gedivan Pereira, patriarca da
família disfuncional que luta para sobreviver, ironicamente, através da morte.
Herdou do pai a F.U.I., estabelecimento no qual a vida de todos transcorre.
Visando incrementar o faturamento, instalou uma capela na funerária para velar
os defuntos ali mesmo, o que só fez aumentar a possibilidade de confusões.
A família desarranjada e a
vizinhança do Irajá
Na história da excêntrica família
Pereira e seus agregados, os personagens são a grande tônica da comédia. Ruço
(Miguel Falabella) é casado com Abigail (Lorena Comparato), mais conhecida como
Bibi. Trinta anos mais nova, ela vive desiludida com o marido, apesar de amá-lo
bastante. Quer fazer uma plástica, mesmo que não precise, e sonha em morar na
zona sul.
Com eles, moram a ex-mulher de
Ruço, Darlene (Marília Pêra), maquiadora oficial dos defuntos, e os dois filhos
que teve com ela, Alessanderson (Daniel Torres) e Odete Roitman (Luma Costa). A
ex é uma sessentona enxuta e costuma errar a mão ao exagerar na maquiagem, mas,
nos poucos momentos em que não está sob o efeito do álcool, ela até que dá um
jeito nos “presuntos”. Odete é a filha mais velha e está sempre às voltas com
problemas financeiros, obrigando o pai a engolir os trocados que ela descola se
exibindo na web. O filho é iletrado, mas quer ser vereador e faz de tudo para
angariar votos. Não deixa escapar nem o negócio do pai, mesmo a contragosto do
coroa.
Ruço também não conseguiu deixar
de lado sua antiga babá, conhecida como Bá (Niana Machado), uma senhorinha que
já não se lembra de nada e serve de bode expiatório em diversas situações.
Estranhos como eles, os agregados
reforçam o time de esquisitos do Irajá. Tamanco (Mart’nália) tem uma oficina ao
lado da F.U.I. e, muitas vezes, quebra um galho para Ruço. É uma borracheira de
sucesso e namora Odete Roitman. Marcão (Maurício Xavier) é o irmão de Tamanco.
Ele a ajuda na administração da oficina e, apesar de ser muito macho nas horas
apropriadas, se traveste glamourosamente em Markassa quando quer.
Juscelino (Alexandre Zacchia) tem
idade meio indefinida, embora não seja mais criança. Acredita-se que seja meio
cego, meio surdo, meio burro, meio louco. Ele é um faz-tudo da funerária – só
que tudo errado. Normalmente é ele quem dirige o rabecão, apesar de ser péssimo
motorista. Sua irmã, Luz Divina (Eliana Rocha), é a responsável pela choradeira
nos velórios. É tão surtada que é capaz de jogar pedras para o ar.
Adenóide (Sabrina Korgut) é a
empregada doméstica da família Pereira. Sem dúvida é a mais pobre de todas e só
tem história de miséria absoluta para contar. Está ali por pura falta de opção,
até porque está longe de ser uma profissional exemplar.
As gêmeas Soninja (Karin Hills) e
Giussandra (Karina Marthin) são donas da carrocinha Cachorras-Quentes que fica
bem pertinho da funerária. Aproveitam a proximidade para vender sanduíches com
nomes nada convencionais, como X-túmulo e caixão-quente. Apesar de serem
gêmeas, de parecidas só têm mesmo o jeito, e vivem explicando como a mãe pariu
duas crianças de pais diferentes ao mesmo tempo.
E, para finalizar o time nada
convencional do seriado, Floriano (Rubens de Araújo) é o vigilante de Irajá.
Toma conta da vida de todo mundo e acha que os vizinhos causam transtornos no
bairro.
Entre caixões e coroas de flores, a cenografia e a produção de arte
Representado no seriado, o bairro
do Irajá, no Rio de Janeiro, foi ponto de encontro das equipes de cenografia e
produção de arte para a construção e ambientação da cidade cenográfica, de dois
mil metros quadrados, na Central Globo de Produção. Segundo o cenógrafo Keller
Veiga, cerca de 200 pessoas foram envolvidas no processo de construção das
cidades cenográficas e estúdios. Ele destaca o excesso de informação visual –
placas, letreiros, cartazes, faixas de rua – e elementos urbanos como azulejos,
cerâmica e mármore no revestimento de fachadas como marcas do Irajá presentes
na cenografia.
Durante o trabalho de pesquisa,
as equipes fotografaram residências e detalhes do bairro carioca, como
equipamentos urbanos, pavimentação, muros, ruas e calçadas, placas de lojas,
revestimento de fachadas, instalações etc. “O principal lugar visitado foi o
cemitério do Irajá, que forneceu bastante subsídio para a criação de cenários
da funerária”, conta Keller.
A casa da família Pereira traduz
a falta de recursos e ao mesmo tempo o bom humor que permeiam a rotina de seus
habitantes. “Procuramos comprar coisas engraçadas para a decoração que tivessem
a ver com o universo de Irajá. A casa deles tem uma mistura de elementos. A
roupa de cama, por exemplo, é surrada para mostrar que eles aproveitam os
lençóis dos defuntos”, explica a produtora de arte do seriado, Marcia Rossi.
Entre cômodos extremamente
simples e rudes, chama atenção o quarto da personagem Odete Roitman (Luma
Costa), que a princípio é a pessoa que sustenta a casa. “Como ela tem um pouco
mais de dinheiro do que o restante da família, o quarto dela é onde pudemos dar
uma modernizada. Tem um computador bom, uma webcam para ela filmar as suas
performances. Ela é muito antenada com o que acontece no mundo”, descreve
Marcia. Combinando com a “profissão” da dona, o mouse de pimenta é um dos
detalhes em destaque no ambiente.
Para equipar a F.U.I, Marcia
visitou duas fábricas de caixões. Uma em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, e
outra em São Paulo. “Por incrível que pareça, o trabalho de confecção é
espetacular”, conta. Ao todo, 30 caixões dos mais variados tipos e tamanhos
foram construídos em diferentes fases de acabamento para o seriado. Alguns
deles, inclusive, foram adaptados para as situações de velório: “Em algumas
cenas, temos pessoas deitadas dentro do caixão, então, compramos uma espuma e
forramos para que os atores tenham conforto”, revela Marcia.
Com a extravagância digna do
Irajá, o trabalho do figurino e caracterização
São personagens diferentes com um
ponto em comum: a loucura! Esse foi o ponto de partida da figurinista Sonia
Soares e da caracterizadora Carla Biriba na composição dos personagens. As duas
e suas equipes fizeram uma imersão em Irajá, onde encontraram um universo
colorido, de sombras fortes, batons de tons intensos, cabelos longos e
cacheados.
Para Ruço (Miguel Falabella),
Sonia conta que escolheu peças inspiradas num rapper americano, que mistura
diferentes estilos no dia a dia. E, em ocasiões especiais, usa camisas de manga
curta e calças de alfaiataria, tudo muito surrado.
Sua esposa, Abigail (Lorena
Comparato), por ser mais jovem e dona de um corpo escultural, usa e abusa dos
vestidos curtos e apertados em todas as ocasiões. O figurino da ex-mulher de
Ruço, Darlene (Marília Pêra), exigiu um pouco mais de cuidado das equipes:
“Pensei em torná-la mais divertida e resolvi misturar estampas. Juntei bolas
com floral, bichos, e, para isso, é preciso ter cuidado e manter certo
equilíbrio”, explica Sonia.
Já a filha de Ruço e Darlene,
Odete Roitman (Luma Costa), não por acaso, usa cinta-liga e meia sete-oitavos
no dia a dia. “Ela anda pronta para tirar a roupa. Está sempre vestida para
trabalhar”, diverte-se Sonia. E, para completar, usa algumas fantasias de
acordo com os temas que escolhe na hora do trabalho, como colegial, heroína de
mangá, professora, etc.
Na funerária, Juscelino
(Alexandre Zacchia) está sempre de terno preto e gravata fina. Floriano (Rubens de Araújo), o vigilante do
bairro, usa roupas mais clássicas, como calças de alfaiataria e camisas de
botão.
Tamanco (Mart’nália) tem um
estilo bastante masculino, mesmo quando não está com seu macacão de mecânico. O
irmão dela, Marcão (Maurício Xavier), quando se veste de mulher e se traveste
em Markassa, não exagera, opta por vestidos que Odete Roitman (Luma Costa)
usaria.
As vendedoras de cachorro-quente
Soninja (Karin Hills) e Giussandra (Karina Marhtin) se vestem iguais, já que
são gêmeas. “As duas usam minissaia e maquiagem e têm o rosto muito suado, já
que ficam perto da chapa quente fazendo sanduíches”, conta Sonia.
Para a caracterizadora Carla
Biriba, os destaques são Markassa Mensalão (Maurício Xavier) e Odete Roitman
(Luma Costa): “A Markassa, pela quantidade de perucas, e a Odete porque, na maioria dos episódios, usa uma nova
fantasia”.
Carolina Rodriguez – carolina.rodriguez_let@tvglobo.com.br
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