O mendigo ou o cachorro morto, já
deve ter sido encenado centena de milhares de vezes mundo afora. Muitas pessoas
devem ter visto e se questionado tantas vezes, mas nenhuma delas conversou com
o nada, como eu conversei na apresentação de Flint Borck e Pedro Portugal no último dia cinco de novembro na
caixa preta de Artes Cênicas da UFGD.
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Divulgação |
Bertolt Brecht é um soco no nariz
em cada frase escrita e falada por seus intérpretes. Uns profissionais outros
amadores. Todos com a mesma ideia, chocar quem está vendo. Dizer frases de
efeitos com defeitos. O espetáculo que assisti teve gosto de besouro. Você já
experimentou alguma vez um besouro? Eu nunca, mas é bem por aí. Os besouros nos
fazem pensar, agir, agitar-se.
Flint e Portugal narram o texto por
uma ótica diferenciada. O expectador, quase não vê os atores ou os personagens
em cena, mas sente.
O tom ora mais grave, ora mais agudo chama a atenção para a
cena. Num primeiro momento parece que a gente está em uma gaiola ou debaixo de
uma marquise da grande selva de pedra, e estar nesse lugar apertado, sufocante,
nos dá um gosto estranho de sangue adormecido no canto da boca, um incômodo acomodado.
Por estar preso entre ratos no porão
os personagens nos chama pra cena a cada respirar, não dá tempo de ter devaneios,
puxa-nos para uma epifania. Em alguns momentos esquecia-me que estava na caixa
preta. Não! Eu estava no porão da Alemanha nazista. Essa epifania vai me deixar
louco.
Porém, entre tantos incômodos, um
me chamou atenção, me desconfortou e me chamou para a realidade. Os erros de
tempo da oração, a falta de cuidado com a língua portuguesa. Acredito que
certos vícios de linguagem, quando usado tem que estar no contexto da cena. Infelizmente,
nestes momentos a gente via os atores e não os personagens. Pequenos cuidados
que talvez a falta de tempo, não deu para corrigir, ou a direção optou em
colocar na cena para deixar os atores mais soltos.
A sujeira proposital do porão
sempre nos remetia a Revolução Industrial e volto a dizer, e para uma Alemanha nazista.
Em Certos momentos sentia que estava naqueles comboios de judeus andando sem
rumo no rumo da câmera de gás.
Saber conviver com os ratos, com o
cachorro imaginável, com as luzes, dividir um minúsculo espaço, sentir o hálito
do colega ao lado nos faz pensar: como somos egoístas. Como acreditamos que
somos melhores. O espetáculo é uma bela reflexão do eu, do abandono no fim da
caminhada.
Os instrumentos usados em cena remete-me
as aulas de música e cena dois. Ali pude ver elementos aplicados em sala num
casamento perfeito, por exemplo, um objeto para emitir a fala do personagem, o
bater das mãos na madeira.
O cuidado da direção em
aproveitar ao máximo o talento de cada ator em cena. Horas depois descobri que
essa apresentação também foi salva pelo diretor que chamou a responsabilidade
para si e fez o melhor com o diamante bruto que havia nas mãos.
Enfim, um espetáculo que merece
um olhar especial. Que merece ser visto outras vezes, mesmo sendo assustador
quando a gente se depara com nossos fantasmas. Mas garanto que a dor e a
vergonha de ver o nosso eu estampando no espelho é suportável. É ma bela conversa com o nosso nada.
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